O acesso à saúde começa, muitas vezes, pelo reconhecimento do cidadão perante o Estado. No Hospital Estadual Leonardo Da Vinci (Helv), unidade da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), essa compreensão tem se transformado em ação concreta. Por meio de articulação do Serviço Social com o Caminhão do Cidadão, programa da Secretaria da Proteção Social (SPS), pacientes em situação de vulnerabilidade têm a oportunidade de emitir documentos essenciais, como a nova Carteira de Identidade Nacional (CIN) e o CPF, ainda durante a internação.
A iniciativa contribui diretamente para a garantia de direitos e para a continuidade do cuidado após a alta hospitalar. Segundo a assistente social Karina Barcelos, a ausência de documentação impacta de forma significativa a vida dos usuários. “Os documentos básicos garantem o reconhecimento formal do indivíduo. No campo da saúde pública, são fundamentais para o cadastro em sistemas, acesso a atendimentos, realização de exames e continuidade do cuidado”, explica.
Ela ressalta que a falta desses registros pode agravar situações de vulnerabilidade. “A ausência de documentação compromete o reconhecimento da pessoa como cidadã, fragilizando sua identidade civil e limitando o acesso a direitos, inclusive à saúde”, completa.
Pacientes sem documentação enfrentam uma série de obstáculos, que ultrapassam o atendimento em saúde. “Há barreiras no acesso aos serviços, dificuldades de inserção em políticas públicas e impossibilidade de acessar benefícios sociais”, destaca Karina.
Para enfrentar essa realidade, o Serviço Social do Helv atua de forma estratégica por meio da identificação das demandas, orientação dos usuários e familiares, bem como na articulação com a rede socioassistencial e sociojurídica.
O setor é responsável pelos encaminhamentos para emissão de documentos, contato com cartórios e, quando necessário, articulação com a Defensoria Pública para processos de registro civil tardio, garantindo que a ausência documental não impeça o acesso ao cuidado.

Jonathan comemora nova documentação
Entre os beneficiados pela ação está o vendedor ambulante Jonathan Oliveira, de 29 anos, internado desde o dia 18 de março para tratar uma úlcera. Paraplégico desde os 17 anos, ele vive sozinho e já teve documentos roubados anteriormente.
Para ele, o documento é mais que mera formalidade. “Se eu não tiver a minha identidade, eu não sou um homem. Não é só um papel. Sem documento, você não compra nada, não tem nada. Você fica perdido”, relata.

Rita Bonfim posa ao lado de profissional do Helv
Quem também teve a vida impactada pela iniciativa foi Rita Bonfim, de 45 anos. Moradora da Praia do Futuro e mãe de sete filhos, ela deu entrada na unidade em 21 de fevereiro. “Cheguei aqui morta e agora me sinto viva de novo”, relata. Após tratamento e recuperação, Rita recebeu alta já com a documentação garantida.
Para ela, a conquista simboliza a retomada da autonomia e o acesso a direitos básicos. “Agora eu posso ter meu Bolsa Família de volta e alugar um cantinho pra mim”, conclui.